Falsa notícia – Porque existe tanta na internet?

SalvadorNeto-Comunicacao-noticias-falsas-na-internet-fake-news-mentirasA notícia mais lida no famoso site Mega Curioso durante o mês de junho falava de uma mulher que fingiu ser cega durante 28 anos para não precisar interagir com as pessoas. Antes da confirmação que se tratava de uma pegadinha de um site gringo, a gente colocou um aviso falando que poderia ser mentira. Mesmo assim, o negócio bombou! Mas, afinal, por que os internautas – e até mesmo sites respeitados – caem no fenômeno das fake news, as notícias mentirosas.

Esse tipo de “informação” ganhou destaque especial na imprensa mundial depois das eleições norte-americanas para eleger o novo presidente no ano passado. Aqui no Brasil, em 2014, algo parecido ocorreu: partidários de vários políticos disseminavam informações falsas de seus adversários e isso acabava viralizando.

Recentemente, tanto o Facebook quanto a Google entraram nessa guerra, tentando desenvolver algoritmos que diminuam a propagação em massa dessas notícias, mas o fenômenos está longe de ter um fim. E, de acordo com uma pesquisa publicada na revista Nature Human Behavior, o maior problema não está nos robôs que criam essas informações, mas na própria era informacional na qual estamos inseridos.

Mea-culpa: o Mega também noticiou a falsa história da mulher que teria fingido ser cega

Pouca atenção

Veja bem: na era das redes sociais, as notícias “precisam” ser cada vez mais enxutas para conseguir pescar o leitor. Muitos, inclusive, sequer leem as matérias, divulgando como verdade as informações que são repassadas apenas nos títulos. E o jornalismo, apesar das dificuldades que enfrenta, ainda é um grande formador de opinião; logo, esse tipo de comportamento é bastante perigoso.

E as redes sociais são as que mais favorecem essa disseminação de inverdades, já que a gente se acostumou a navegar pelos feeds com pouco cuidado. Os pesquisadores chineses que analisaram as fake news criaram uma rede de estudo em que notícias reais e mentirosas eram compartilhadas, mas as falsas recebiam mais atenção. Depois, pessoas de verdade recebiam as informações e interagiam entre si comentando sobre os dados.

Foi constatado o óbvio: os robôs que mais inundavam seus canais de informação com notícias falsas tinham mais chances de criar conteúdos virais do que as páginas dedicadas a fornecer notícias verdadeiras. E isso é algo que já acontece na internet hoje em dia, já que recebemos uma avalanche de conteúdo, mas nem todos são de fontes confiáves.

Falta de atenção ajuda na propagação das notícias falsas

Solução? Talvez…

Outro detalhe analisado é o fato de que mesmo usuários mais escolados são capazes de cair nesse tipo de mentira, afinal, não depende apenas deles. Normalmente, acabamos acessando as redes sociais com diferentes estados de ânimo e podemos acabar caindo em alguma mentira quando estamos mais distraídos. Agora, imagine quem faz parte daquele grupo que acredita que “está na internet, é verdade”? Eles fazem as fake news se propagarem como fogo em palha!

A solução não parece muito fácil. Segundo os pesquisadores, uma ideia seria limitar a quantidade de publicações de qualquer fonte de informação, assim, a avalanche de conteúdo acabaria diminuindo, fazendo com que mais conteúdo de qualidade se destacasse. Será? Quais vocês acham que poderiam ser as soluções para esse problema?

Será que limitar a quantidade de postagens por página é a solução ideal?

O consumo das notícias pelos jovens da “Geração do Milênio”

É preciso estar atento às mudanças no modo de consumo das notícias

É preciso estar atento às mudanças no modo de consumo das notícias

Além de se preocupar pouco com os noticiários, a chamada Geração do Milênio (formada por jovens entre 18 e 34 anos) parece estar mudando completamente a maneira de consumir notícias.

Se antes era primordial consultar jornais e cobertura televisiva, hoje os jovens preferem recorrer a redes sociais para ficar por dentro dos fatos da atualidade. Simplificando: a rede social não é mais apenas social. Há muito deixou de ser um meio de contato com amigos para tornar-se um meio de conexão com o mundo em geral.

Os dados são fruto da pesquisa “Millennial media habits” (Hábitos de mídia da geração do milênio, na tradução livre), realizada pela ONG American Press Institute, ligada à Associação de Jornais da América, com jovens entre 18 e 34 anos. Embora o estudo tenha sido conduzido nos Estados Unidos, ele é um indicativo importante da relação da primeira geração digital com a imprensa.

Contato quase acidental
Quase 90% dos jovens obtêm notícias regularmente através do Facebook, no entanto menos da metade alega que a notícia seja sua principal motivação para visitar o site ou aplicativo da rede social.

Este dado sugere que a notícia não é “buscada” nas mídias sociais, mas sim visualizada quase “acidentalmente”. É como se as redes sociais funcionassem como uma versão digitalizada do rádio ou do antigo hábito de “zapear” pelos canais de TV.

Outra indicação de que os jovens estão dedicando pouca energia para encontrar notícias é que apenas uma minoria prefere pagar para receber informações. Embora 93% dos pesquisados tenham alegado assinar pelo menos um serviço de comunicação, menos da metade deste grupo disse pagar de fato pelas notícias.

A porcentagem de jovens que pagam por um serviço ou aplicativo de notícias (40%) é menor do que o número que paga para ter acesso a filmes e TV (55%), a jogos (48%) ou a música (48%).

Racionais e exigentes
Mas antes de julgar os jovens como desinteressados, é preciso analisar o conceito de “notícia” na mente dos entrevistados. O que as pessoas de fato consideram notícia? Tráfego e condições meteorológicas, alimentos e restaurantes, placares esportivos?

Para resolver este problema, o estudo investigou os tópicos nos quais as pessoas prestam atenção e de que modo buscam mais informações sobre os mesmos. Esta etapa incluiu entrevistas qualitativas, nas quais os entrevistados foram questionados diretamente sobre os temas que mais os faziam passar tempo online.

Os resultados desmascaram a noção de que os americanos mais jovens estão optando por focar a atenção apenas em notícias leves e entretenimento. A geração do milênio acompanha regularmente uma ampla gama de tópicos, uma mistura de notícias consideradas “sérias” (as chamadas “hard news”), notícias leves e notícias que servem como tópicos de conversas do dia a dia.

Além disso, os nativos digitais são racionais e exigentes na forma como utilizam diferentes fontes de informação para cada tipo de notícia: além de utilizar as redes sociais de forma mais determinada, este grupo faz uso de motores de busca e agregadores para complementar as informações que já possuem, optando sempre por fontes que lhes pareçam mais “profissionais” e confiáveis.

Gosto por hard news
Ainda assim, os jovens pesquisados tendem a se concentrar nos assuntos de seu interesse. Televisão, música e filmes estão entre os tópicos mais seguidos (dois em cada três entrevistados declararam acompanhar as notícias sobre tais assuntos regularmente). Já 60% deles concentram-se em pesquisar sobre notícias e seus hobbies pessoais.

Mas tópicos de notícias mais civicamente orientados também são parte significativa do interesse desta geração. Mais pessoas disseram acompanhar política, crimes, tecnologias, sua comunidade local e questões sociais em comparação àquelas que disseram acompanhar cultura pop e de celebridades, moda e estilo.

Quase todos os jovens adultos entrevistados acompanham as chamadas “hard news”: 45% dos jovens da Geração do Milênio acompanham cinco ou mais tópicos do gênero. O interesse pelas “hard news”, aliás, não parece estar correlacionado à idade.

Os entrevistados mais jovens são tão propensos a acompanhar tópicos de “hard news” quanto os mais velhos do grupo. As entrevistas qualitativas indicaram que praticamente todos possuíam algum objeto de interesse profundo, podendo este ser relacionado à carreira, herança familiar, experiência de viagem ou algum outro fator.

E todos tendem a ser bastante conscientes e ativos ao buscar informações sobre estas áreas de interesse, identificando os especialistas e acompanhando as empresas jornalísticas mais confiáveis no assunto.

Em outras palavras, embora o Facebook seja o meio mais popular para se descobrir algum assunto, quando as pessoas querem pesquisar mais, elas recorrem a outros caminhos, incluindo as empresas de notícias.

Preocupação com a perda de tempo online
É fato que as redes sociais desempenham um papel preponderante entre a Geração do Milênio, principalmente por abrirem espaço para que os jovens opinem, compartilhem as notícias e conheçam outros pontos de vista.

Entretanto, curiosamente, o Facebook – fonte campeã na busca por notícias – também foi citado negativamente, sendo visto como campo para discussões inúteis ou fonte de informações imprecisas e pouco confiáveis. Talvez por isso, muitos dos entrevistados tenham demonstrado preocupação com a quantidade de tempo que passam em redes sociais.

Mudando o consumo de notícias
Segundo o estudo do American Press Institute, embora as redes sociais estejam em primeiro lugar na busca por notícias, as plataformas para encontrar notícias (sejam organizadas por algoritmo, editores humanos ou uma combinação do dois) são a segunda fonte mais acessada (inclui-se aí sites de busca, agregadores e blogs). Pelo menos sete em cada dez entrevistados disseram recorrer a este recurso.

A terceira via é a mídia jornalística tradicional. Embora muitas pessoas caiam nestes destinos por outros meios (vindo de links do Facebook ou Twitter, por exemplo), há quem busque as fontes diretamente – seja assistindo a um noticiário, usando um aplicativo de uma empresa jornalística ou lendo um jornal impresso ou digital. Tais mídias incluem emissoras de TV locais e nacionais, jornal, rádio, criadores de conteúdo online e mídia especializada.

A virtude de olhar para o consumo de notícias por este prisma é que ele revela algo mais sutil do que simplesmente a prevalência do Facebook na vida digital das pessoas. A grande revelação é a pluralidade de fontes que a maioria dos integrantes da Geração do Milênio usa para encontrar notícias.

A participação ativa e o engajamento através de compartilhamento, comentários ou investigações de diferentes perspectivas e opiniões também mostram que o novo consumidor de notícias deixou de ser um espectador passivo e se tornou ativo no meio em que vive.

Com informações do Observatório da Imprensa – Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Derek Thompson [“Journalism in the Age of the Accidental News Junkie”, The Atlantic, 16/3/15], do American Press Institute [“Millennials’ nuanced paths to news and information”, 16/3/15] e de Mark Joyella [“Millennials Want Hard News, Use Google to Find It”, TV Newser, 16/3/15].