Arquivar março 2015

O Facebook já dominou a internet. O que vem depois?

Salvador-Neto-comunicacao-blog-facebook-internet-futuroO Facebook tem uma missão muito clara: conectar todas as pessoas do mundo. É a tecla em que bate Mark Zuckerberg todas as vezes em que ele se apresenta em um evento público. Agora, com mais de 1,4 bilhão de pessoas usando a plataforma, chegou a hora de se perguntar “Para onde vai o Facebook?”.

A cada três meses a rede social atualiza os números públicos referentes aos seus usuários ativos mensais, as pessoas que fazem login na página pelo menos uma vez por mês. E, apesar de vermos um crescimento contínuo, o fôlego parece estar diminuindo. Não à toa: só há mais 1 bilhão de pessoas online que ainda podem se tornar parte da base de usuários, e muitas delas provavelmente já tiveram a oportunidade e decidiram ficar de fora.

As estimativas mais recentes indicam que há cerca de 3 bilhões de internautas no mundo, dentre os quais estão 640 milhões de chineses, que não têm acesso ao site, banido no país.

Portanto, o Facebook precisa recorrer a outras alternativas para seguir crescendo. E isso ficou muito claro com as últimas atitudes tomadas pela companhia e apresentadas na F8.

Levar conexão aonde ela não existeReprodução
Parece ser o próximo foco de Mark Zuckerberg. O projeto se veste como uma fundação sem fins lucrativos que quer levar internet aos lugares mais pobres e afastados, onde não há infraestrutura, mas o Internet.org beneficia diretamente o Facebook.

Durante a F8, a empresa detalhou o Aquila, drone que já está em fase de testes e que será responsável por sobrevoar estas áreas distribuindo sinal de internet sem fio usando lasers. A aeronave não tripulada tem uma envergadura de mais de 30 metros, maior de que a de um Boeing 737. Ele pode voar por meses em altitudes de até 18 quilômetros, abastecido por painéis para captação de energia solar.

Com isso, o Facebook teria um novo grupo de pessoas conectadas que jamais teve contato com a rede social e que poderia ajudar a ampliar exponencialmente sua base de usuários, que passou a crescer em um ritmo pequeno. Claro que isso será revertido também em mais publicidade, o que gera mais receitas para a  companhia

Tem um outro detalhe um pouco mais sinistro neste caso, porém. Sendo o fornecedor de internet para as regiões pobres, o Facebook poderia controlar diretamente o acesso à rede destas pessoas, efetivamente determinando o que elas podem e não podem ver. Nos países onde a Internet.org já está implantada, isso já está em vigor de certa forma: o acesso é grátis a determinados conteúdo de parceiros, normalmente apps educacionais, para busca de empregos, previsão do tempo e informações sobre saúde. Obviamente, o acesso à rede social também está garantido.

Rentabilizar e segurar ainda mais a base atual de usuários
Reprodução

Uma empresa gigante como Facebook não se mantém se suas receitas e seu lucro não continuarem crescendo. Nos últimos anos, a companhia tem feito um trabalho excelente de monetizar sua base gigantesca de usuários, mas se o seu crescimento está desacelerando, é preciso fazer cada uma destas pessoas render mais dinheiro.

Como alcançar isso? Fazendo com que as pessoas não tenham mais que sair do Facebook para nada. Efetivamente, a rede social quer englobar a internet toda.

O modo como a empresa quer fazer isso fica mais claro a cada dia que passa. A estratégia de vídeos do Facebook é simples: a rede social quer mais desse tipo de conteúdo e está disposta a impulsionar violentamente o alcance das páginas e pessoas que publicarem seus vídeos nativamente na rede.

Há alguns motivos para isso, dos quais destacamos dois:

  • Publicidade em vídeo vale muito mais do que um banner no canto da página ou uma imagem patrocinada no seu feed. Mesmo que você ainda não esteja vendo anúncios do tipo, a rede social quer que as pessoas se acostumem com seu feed de notícias em movimento. Esse dia chegará.
  • Uma afronta direta ao YouTube. Conteúdo em vídeo é a febre do momento na internet e, sendo o site de Google a maior plataforma dedicada a este material, isso significa pessoas saindo do Facebook para assistir a alguma coisa em outra página, gerando dinheiro para outra empresa. O novo recurso que permite a incorporação de vídeos em outras páginas da web é outra medida neste sentido. Conteúdo exclusivo para a rede também está chegando.

Essa estratégia também inclui a compra da Oculus VR, a empresa que desenvolve o dispositivo de realidade virtual Oculus Rift. Foi anunciado que a rede social ganhou suporte a vídeos “esféricos”, recurso conhecido no mundo real como gravação em 360 graus. É uma ideia que casa perfeitamente com a proposta da realidade virtual para criar experiências de imersão.

Há ainda o rumor de que grandes sites e jornais digitais poderiam fechar uma parceria para publicar suas notícias e artigos diretamente no Facebook, acabando com a necessidade de clicar em um link externo para ler as informações. É mais um exemplo de como a rede social quer engolir a internet.

Diversificação

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Vamos supor que a rede social, o principal produto do Facebook, caia em desuso. Sem problemas (brincadeira, seria um problema gigantesco, mas não sem solução): a empresa ainda controla alguns dos principais aplicativos móveis no mundo. O Messenger, o WhatsApp, e o Instagram garantem que a companhia não perderá relevância tão breve.

A diversificação de negócios garante um controle enorme da informação que é publicada diariamente pelas pessoas conectadas na internet. Estes serviços ainda não são massivamente monetizados pelo Facebook, mas tudo isso vai levar, invariavelmente, a um conhecimento mais profundo de seus usuários, o que acarretará em métodos de arrecadação diversificados.

O mais interessante é ver como a empresa decidiu diferenciar o WhatsApp do Facebook Messenger, vistos como possíveis concorrentes, que poderiam canibalizar a audiência um do outro. No entanto, houve uma guinada interessante na tática do segundo caso, que é a transformação em uma plataforma ampla.

O WhatsApp continuará sendo o mensageiro “arroz-com-feijão” que sempre foi, leve e adequado a todo tipo de usuário no mundo. O Messenger não. O Facebook quer que ele seja usado no comércio eletrônico para integração entre empresas e clientes, que permita a transferência de dinheiro entre amigos, que outros aplicativos conversem com ele para criação de conteúdo diversificado, incluindo áudio, vídeo, GIFs, possibilitando até mesmo a aplicação de efeitos.

Com informações do Olhar Digital

O consumo das notícias pelos jovens da “Geração do Milênio”

É preciso estar atento às mudanças no modo de consumo das notícias

É preciso estar atento às mudanças no modo de consumo das notícias

Além de se preocupar pouco com os noticiários, a chamada Geração do Milênio (formada por jovens entre 18 e 34 anos) parece estar mudando completamente a maneira de consumir notícias.

Se antes era primordial consultar jornais e cobertura televisiva, hoje os jovens preferem recorrer a redes sociais para ficar por dentro dos fatos da atualidade. Simplificando: a rede social não é mais apenas social. Há muito deixou de ser um meio de contato com amigos para tornar-se um meio de conexão com o mundo em geral.

Os dados são fruto da pesquisa “Millennial media habits” (Hábitos de mídia da geração do milênio, na tradução livre), realizada pela ONG American Press Institute, ligada à Associação de Jornais da América, com jovens entre 18 e 34 anos. Embora o estudo tenha sido conduzido nos Estados Unidos, ele é um indicativo importante da relação da primeira geração digital com a imprensa.

Contato quase acidental
Quase 90% dos jovens obtêm notícias regularmente através do Facebook, no entanto menos da metade alega que a notícia seja sua principal motivação para visitar o site ou aplicativo da rede social.

Este dado sugere que a notícia não é “buscada” nas mídias sociais, mas sim visualizada quase “acidentalmente”. É como se as redes sociais funcionassem como uma versão digitalizada do rádio ou do antigo hábito de “zapear” pelos canais de TV.

Outra indicação de que os jovens estão dedicando pouca energia para encontrar notícias é que apenas uma minoria prefere pagar para receber informações. Embora 93% dos pesquisados tenham alegado assinar pelo menos um serviço de comunicação, menos da metade deste grupo disse pagar de fato pelas notícias.

A porcentagem de jovens que pagam por um serviço ou aplicativo de notícias (40%) é menor do que o número que paga para ter acesso a filmes e TV (55%), a jogos (48%) ou a música (48%).

Racionais e exigentes
Mas antes de julgar os jovens como desinteressados, é preciso analisar o conceito de “notícia” na mente dos entrevistados. O que as pessoas de fato consideram notícia? Tráfego e condições meteorológicas, alimentos e restaurantes, placares esportivos?

Para resolver este problema, o estudo investigou os tópicos nos quais as pessoas prestam atenção e de que modo buscam mais informações sobre os mesmos. Esta etapa incluiu entrevistas qualitativas, nas quais os entrevistados foram questionados diretamente sobre os temas que mais os faziam passar tempo online.

Os resultados desmascaram a noção de que os americanos mais jovens estão optando por focar a atenção apenas em notícias leves e entretenimento. A geração do milênio acompanha regularmente uma ampla gama de tópicos, uma mistura de notícias consideradas “sérias” (as chamadas “hard news”), notícias leves e notícias que servem como tópicos de conversas do dia a dia.

Além disso, os nativos digitais são racionais e exigentes na forma como utilizam diferentes fontes de informação para cada tipo de notícia: além de utilizar as redes sociais de forma mais determinada, este grupo faz uso de motores de busca e agregadores para complementar as informações que já possuem, optando sempre por fontes que lhes pareçam mais “profissionais” e confiáveis.

Gosto por hard news
Ainda assim, os jovens pesquisados tendem a se concentrar nos assuntos de seu interesse. Televisão, música e filmes estão entre os tópicos mais seguidos (dois em cada três entrevistados declararam acompanhar as notícias sobre tais assuntos regularmente). Já 60% deles concentram-se em pesquisar sobre notícias e seus hobbies pessoais.

Mas tópicos de notícias mais civicamente orientados também são parte significativa do interesse desta geração. Mais pessoas disseram acompanhar política, crimes, tecnologias, sua comunidade local e questões sociais em comparação àquelas que disseram acompanhar cultura pop e de celebridades, moda e estilo.

Quase todos os jovens adultos entrevistados acompanham as chamadas “hard news”: 45% dos jovens da Geração do Milênio acompanham cinco ou mais tópicos do gênero. O interesse pelas “hard news”, aliás, não parece estar correlacionado à idade.

Os entrevistados mais jovens são tão propensos a acompanhar tópicos de “hard news” quanto os mais velhos do grupo. As entrevistas qualitativas indicaram que praticamente todos possuíam algum objeto de interesse profundo, podendo este ser relacionado à carreira, herança familiar, experiência de viagem ou algum outro fator.

E todos tendem a ser bastante conscientes e ativos ao buscar informações sobre estas áreas de interesse, identificando os especialistas e acompanhando as empresas jornalísticas mais confiáveis no assunto.

Em outras palavras, embora o Facebook seja o meio mais popular para se descobrir algum assunto, quando as pessoas querem pesquisar mais, elas recorrem a outros caminhos, incluindo as empresas de notícias.

Preocupação com a perda de tempo online
É fato que as redes sociais desempenham um papel preponderante entre a Geração do Milênio, principalmente por abrirem espaço para que os jovens opinem, compartilhem as notícias e conheçam outros pontos de vista.

Entretanto, curiosamente, o Facebook – fonte campeã na busca por notícias – também foi citado negativamente, sendo visto como campo para discussões inúteis ou fonte de informações imprecisas e pouco confiáveis. Talvez por isso, muitos dos entrevistados tenham demonstrado preocupação com a quantidade de tempo que passam em redes sociais.

Mudando o consumo de notícias
Segundo o estudo do American Press Institute, embora as redes sociais estejam em primeiro lugar na busca por notícias, as plataformas para encontrar notícias (sejam organizadas por algoritmo, editores humanos ou uma combinação do dois) são a segunda fonte mais acessada (inclui-se aí sites de busca, agregadores e blogs). Pelo menos sete em cada dez entrevistados disseram recorrer a este recurso.

A terceira via é a mídia jornalística tradicional. Embora muitas pessoas caiam nestes destinos por outros meios (vindo de links do Facebook ou Twitter, por exemplo), há quem busque as fontes diretamente – seja assistindo a um noticiário, usando um aplicativo de uma empresa jornalística ou lendo um jornal impresso ou digital. Tais mídias incluem emissoras de TV locais e nacionais, jornal, rádio, criadores de conteúdo online e mídia especializada.

A virtude de olhar para o consumo de notícias por este prisma é que ele revela algo mais sutil do que simplesmente a prevalência do Facebook na vida digital das pessoas. A grande revelação é a pluralidade de fontes que a maioria dos integrantes da Geração do Milênio usa para encontrar notícias.

A participação ativa e o engajamento através de compartilhamento, comentários ou investigações de diferentes perspectivas e opiniões também mostram que o novo consumidor de notícias deixou de ser um espectador passivo e se tornou ativo no meio em que vive.

Com informações do Observatório da Imprensa – Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Derek Thompson [“Journalism in the Age of the Accidental News Junkie”, The Atlantic, 16/3/15], do American Press Institute [“Millennials’ nuanced paths to news and information”, 16/3/15] e de Mark Joyella [“Millennials Want Hard News, Use Google to Find It”, TV Newser, 16/3/15].

Sobre a entrevista coletiva, veja o que pensa o escritor Ruy Castro

Pergunta objetiva, direta, é a receita do bom jornalismo

Pergunta objetiva, direta, é a receita do bom jornalismo

Ao assistir a filmes americanos envolvendo jornalistas, você notará a diferença. Quando surge na tela uma entrevista coletiva, cada repórter dispara uma única pergunta, curta e objetiva, que obriga o entrevistado a fazer “gulp” antes de responder. Agora compare isto com as coletivas dos nossos repórteres de TV.

Quase todos começam por uma pergunta tão longa quanto desnecessariamente explicativa. Não satisfeitos, engatam um “…e também” e emendam uma segunda pergunta, tão longa e explicativa quanto.

Ao fim desta, o telespectador já não se lembra do que ele perguntou primeiro. Mas o entrevistado se lembra muito bem – e só responde àquela que lhe for mais confortável ou conveniente. Vê-se isso ao fim de todos os jogos de futebol, nas coletivas dos treinadores. Tem-se visto isso nas coletivas dos ministros do governo, políticos e autoridades em geral.

A condição
Você dirá que, no cinema, a dinâmica do roteiro faz com que os jornalistas tenham de parecer objetivos – não há tempo nem espaço para conversa fiada em cena. E eu responderei que esta é uma cláusula pétrea entre os repórteres americanos.

“Perguntas curtas, frases curtas, palavras curtas – e uma pergunta de cada vez”, aprendi em Nova York com Alain De Lyrot, antigo editor do Herald Tribune. “Se o entrevistado não responder a contento, você repica a pergunta.”

Nossos repórteres não se contentam com uma pergunta simples e direta. Sentem-se na obrigação de enriquecê-la, desdobrá-la e acrescentar elementos. Com isso, só a tornam confusa e o entrevistado responde o que quiser.

Eu sugeriria que, antes da coletiva, nossos repórteres se entendessem. Todos teriam direito a duas perguntas. Mas uma de cada vez. E com uma condição: além de curtas e objetivas, elas sempre deveriam terminar por um ponto de interrogação.

Da Folha de SP em 18/3/2015