Baú de Memórias #6 – Mentores que me deram a base para o futuro

Quem já leu as crônicas anteriores sabe que houve pedras no caminho. Mas teve também boas presenças de gente que me ensinou horizontes, e até estenderam as mãos. Sou muito grato por tudo e por tanto que estes personagens que entraram em minha vida entre um trabalho e outro, fizeram para a minha formação profissional e pessoal. Bora ler?

Tenha bons mentores, professores que te elevem e indiquem o caminho
Dos tempos da Elmo Contabilidade e Meta Organização Contábil ficaram não só más lembranças. Ficaram aprendizados únicos, com mestres de primeira, e uma amizade pelo menos que dura até hoje. Um deles era o consultor Vladimir Akcelrud, se não escrevo o seu nome erradamente. O conheci na Elmo quando ele era contratado para criar um plano de carreira para a empresa. Como já contei, eu havia assumido a primeira chefia na vida lá, e me escolheram então para ser o executor do plano, já que Vladimir dava o caminho. Não entendia nada de recursos humanos, planos, etc.

Ele além de me orientar, indicou livros e outras pessoas para que eu buscasse embasamento. Um deles, outro mestre e amigo para a vida, foi o então gerente de treinamentos da Associação Empresarial de Joinville – ACIJ, o Ademir Machado, que depois viria a ser vereador por três mandatos, secretário municipal, entre outras coisas que contarei mais em outra crônica. Voltando ao Vladimir, com ele aprendi em conversas inclusive em sua casa, que para que as coisas acontecessem era preciso… delegar. Eu centralizava, queria entregar o trabalho, mas estava sobrecarregado.

Outra coisa que o consultor ensinou a este vivente foi que, palavras dele, quem trabalha demais não tem tempo para pensar. Quem pensa ganha dinheiro, quem não pensa, trabalha muito.Então, entreguei o plano de carreira. Aprendi a delegar, a pensar, a tratar as pessoas como elas merecem, e liderar. Vladimir Akcelrud, nunca esqueci e esquecerei. Por ele fui até o Ademir Machado na Acij. Chegando lá descobri que outro grande amigo de adolescência trabalhava com ele, o Edson Holler.

Ao longo de meses nós conversamos muito sobre treinamentos, cursos, e outras coisas. O que eu não sabia era que Ademir era uma liderança comunitária e política no bairro Fátima. Descobri isso quando ele, após voltar de uma viagem ao Uruguai, me chamou na Acij para perguntar o que eu achava de ele ser candidato a vereador. Já estávamos em 1992, antes do desastre societário que aconteceria na Meta no mesmo ano. “O que você acha disso?”, ele perguntou.Não tinha como opinar assim, e perguntei a ele que história era essa. Ademir então contou de sua trajetória comunitária no bairro, na igreja, e que o então deputado federal Luiz Henrique da Silveira o havia convidado para ser candidato pelo PMDB.

LHS enfrentaria o empresário Wittich Freitag, famoso por sua administração e também por impor à Luiz Henrique naquele ano a única derrota eleitoral do falecido líder político. Ouvindo tudo, achei bacana, agora que sabia das ligações que ele tinha. Outra coisa era que o então presidente da poderosa Acij era o empresário José Henrique Carneiro de Loyola, que depois seria vice de LHS e também senador. Apoiei o amigo, já que via que ele sabia o que estava fazendo.Ali iniciava a minha forte presença na política, nos bastidores, no apoio, organização, planejamento, estratégia, tudo o que você pode imaginar em termos de uma campanha politica, e depois, em cargos parlamentares e em executivos, iniciado pelo amigo Ademir Machado.

Mas, naquele ano de 1992, eu era um iniciante, sabia da política por ler, estudar. A partir dali eu conheci um partido político, os churrascos e rifas que arrecadavam dinheiro para bancar a campanha, e campanhas naqueles tempos. E conheci também o valor de uma mão estendida quando você está precisando muito de força e apoio.Ademir foi um dos que souberam logo da cisão, digamos assim, entre eu e os outros sócios da Meta que ele viu nascer. Ele fazia a sua campanha com um carro Passat creio, ou uma Belina, não lembro bem, e junto com ele o seu cumpadre Adelar Bittelbrun.

Acompanhei meio de longe, eis que no dia da apuração dos votos, tempos de papel, tudo à mão, ouço no rádio que tinha um desconhecido que havia surpreendido e sido eleito na última vaga reservada ao MDB. O nome dele? Ademir Machado, com 1526 votos creio. Pensei, vou até ele. A sede do MDB ficava na rua Visconde de Taunay, e chegando lá ele me recebeu feliz, contou tudo, e me fez um convite: um trabalho temporário na campanha, havia segundo turno entre Luiz Henrique e Freitag, e ele confiava tarefas a este então jovem para ajudar.O trabalho era simples. Controlar a entrega de materiais, passes de ônibus, atender os líderes das comunidades. Fizemos tudo certo, mas a vitória de Freitag frustrou, temporariamente, a turma do Manda Brasa.

Quatro anos depois, a política é isso, Freitag viria a apoiar LHS contra Eni Voltolini, e o deputado federal venceria para começar a sua trajetória histórica que o levou ao Governo do Estado por duas vezes e também ao Senado. Era outubro de 1992, e eu estava de bolsos vazios, e ainda na peleia jurídica para receber meus haveres justos da sociedade desfeita.Ademir Machado tomou posse em janeiro de 1993 para o seu primeiro mandato, e eu buscava um trabalho para manter a minha família, já que havia casado naquele ano. Ainda não tinha filhos, e ainda bem, morava em uma casa que fiz nos fundos da casa de minha mãe, dona Isolde na zona sul da cidade, bairro Floresta, onde nasci e cresci.

Tempos bicudos que segurei graças ao apoio dela, até que surge a chance de trabalho na empresa Vonpar Refrescos, indústria de refrigerantes que fabrica até hoje a famosa Coca-Cola. Passei por um criterioso processo seletivo para trabalhar em uma das operações mais instigantes no meio comercial. Em 1993 a Coca-Cola era vendida e entregue por duas empresas em Joinville: a Distribuidora Iririú e a Marbi Distribuidora.Havia um depósito da Catarinense Indústria de Bebidas que fora comprada pelo Grupo Vonpar-Coca Cola, e fica na rua Afonso Pena no bairro Bucarein. Lá comecei meu trabalho, um cargo com nome esquisito: representante de vendas.

As tarefas? Embriagar a mente com tudo que existisse de Coca Cola, no marketing, operações, e depois sair às ruas todos os dias com os motoristas vendedores – vendiam e entregavam, pronta entrega – e em um passo seguinte, sair sozinho com papel de cadastro e caneta para cadastrar todos os pontos possíveis de vendas de refrigerante.Começava ali a consolidação de uma carreira focada e alinhada à comunicação, marketing, vendas, relações públicas, estratégia, merchandising, de olho em ir embora para Atlanta, nos EUA. Só que não foi bem assim… Conto mais na próxima!

  • Por Salvador Neto

Baú de Memórias #5 – Meta, triunfo e rasteira

Chegamos à Meta, não meta no sentido de resultado final de um projeto, mas o empreendimento que deveria ter sido (minha cabeça à época) meu futuro e aposentadoria, afinal tinha total confiança nisso. Mas, a vida tem seus percalços… Vamos lá saber?

Meta, triunfo e rasteira
Naquele emprego na antiga Elmo Contabilidade criei várias amizades, aliás, uma marca e determinação minha, de vida: fazer amigos. Quando não dá, não dá né, mas a gente tem que tentar. Entre saídas para botecos para tomar uma gelada (umas), eis que um dos sócios do escritório propõe uma ideia. Vamos abrir o nosso escritório? Cada um aqui conhece de uma coisa, e eu não ganho o que mereço lá, só tenho uma pequena participação. Assim começou a conversa que levou à fundação da Meta Organização Contábil em 1991. A ideia era que ele sairia, faria uma saída amigável, e investiria, enquanto os outros três pagariam aos poucos a ele o valor para abrir a empresa.

Mas, como nada é assim tão simples… Planejamos tudo, muita conversa. Eu acertei o nome: Meta. Um cuidaria da contabilidade, outro da escrita fiscal, folha de pagamento, e eu seria o atendimento, marketing, essas coisas. Conforme o combinado, um a um todos foram saindo. O penúltimo foi o sócio, uma saída nem tão amigável. Eu, o mais ferradinho da turma (rs) fiquei até fevereiro de 1991. Antes, fui convidado pelo sócio majoritário, seu Carlos, a ser sócio… minoritário e cuidar de uma nova área, condomínios. Como sou leal, é outra marca da minha persona, fiquei com os colegas.

Alugamos uma sala no final da rua Max Colin, ao lado de um bar. Pensa. O nosso modelo de negócios seria inovador. Abriria das 7h às 19h sem fechar para almoço, tudo para dar tempo cliente de ser atendido – afinal, empreendedor tem vida corrida. Tudo certo, não fosse por um detalhe, cadê a grana? A saída do ex-sócio minoritário da Elmo não aconteceu como previsto, e a grana não apareceu… Corremos a um banco, tentativa final. E não é que o gerente acolheu nossa ideia e necessidade? Liberou a grana para pagar juros em 12 meses, e as parcelas a partir de 12 meses. Ueba! Compramos mesas, máquina de datilografia, de somar, etc. Lá nasceu a Meta, seria minha aposentadoria… seria.

Como todo negócio novo, tem dificuldades em ganhar espaço. Como demorava para ganharmos clientes e o faturamento gerar alguma renda para todos, um logo desistiu. Ficamos em três e seguimos. Fui um homem de marketing competente, patrocinamos até o famoso programa de rádio “Almoço à Brasileira”, e fomos ganhando clientes, sem baixar preços, ofertando atendimento de excelência. Quando conquistamos uma conta importante da área química, subimos de patamar. Mudamos de sala e fomos para uma casa na mesma rua, mas próximo da antiga Prefeitura de Joinville (SC). Um salto respeitável. De tanto estresse tive problemas estomacais sérios. Nossos almoços eram pão com bife e ovo, muito óleo, quase todo dia. Economia né. À noite, cerveja e cigarros. Só podia dar problema.

Resultados bons, mais clientes, resolvi casar no início de 1992. Terminamos 1991 com lucro legal, e dava para assumir um novo momento de vida. Os meus sócios foram testemunhas, fiz uma pequena casa de madeira com quatro cômodos atrás da casa onde morava com minha mãe e meu irmão. Eis que coisas estranhas começaram a acontecer na sociedade. Os outros dois sócios já não dialogavam, saíam a sós – aí já tinham namoradas dos dois trabalhando, e um funcionário que recebia mais que a gente…eheheh, normal – e eu seguia minha vida mais regrada, saía para almoçar normal, minha gastrite exigia. Aliás fui a um médico que me deu a maior lição de vida, e decidi seguir seus ensinamentos. Sem isso nem sei se ainda estaria por aqui, porque a coisa no estômago era terrível!

O Collor com o seu PC Farias já estava no caminho do impeachment – Brasilzão sendo Brasilzão né – e eis que um dia aparece um advogado e diz que precisa falar comigo. Achei estranho, mas fomos a uma sala reservada, nosso refeitório na verdade. Ele apresenta uma carta dos meus sócios com uma proposta – indecente – para que eu saísse da empresa. Fiquei chocado, sem palavras. Trabalhávamos a metros uns dos outros, nunca falávamos sobre isso. Este advogado – bem famoso na cidade até hoje em entidade de classe, sociedade centenária… – foi direto, frio. O valor escrito no papel era ridículo, baseado em capital social da empresa limitada que dava legalidade à nossa sociedade, mas não representava o valor real.

Saí imediatamente, atordoado. Não sabia para onde ir, o que fazer, era um garoto de 24 anos recém casado que acabara de ficar sem empresa, sem salários, e muitas contas a pagar. Meus sócios ficaram incomunicáveis. Durante dois dias pensei no que fazer. Decidir voltar à empresa, tinha que ter outra solução. Sentei à minha mesa que era a cara da coisa toda, quem chegasse falava comigo. Os agora ex-sócios sequer falaram comigo. Eu falei, até saio, mas sem golpes, quero o valor justo. Voltei no segundo dia. Toca o telefone, o advogado, aquele. Ameaça explícita de ou sai ou alguém sai contigo daí. E saia prá valer disse ele, com uma ameaça explícita de morte. Fiquei com receio da minha integridade física, estava lidando com bandidos.

Lembrei então de um policial civil que conheci nos tempos do bar do meu pai. Sempre o atendi lá, liguei e me disseram que ele estava na delegacia do bairro aonde a empresa ficava. Fui até ele, contei tudo. Ele ficou mais bravo que eu imaginava. Pediu para eu entrar na viatura com ele. Seguimos até a Meta, e ele disse: se você quiser, entramos lá, e eles te pagam hoje agora. Mostrou arma, distintivo… Pensei alguns segundos, e decidi não fazer algo que poderia me arrepender depois. O policial estava para tudo ou nada, vai que … Penso que tomei a melhor decisão. Voltamos à delegacia, fiz boletim de ocorrência de tudo. Busquei apoio de um advogado que cuidava de problemas do meu pai, o doutor Adauto, também famoso.

Ele ligou na minha frente ao advogado dos ex-sócios. Falou sobre regras da “loja”, etc. Pediram uma semana. Fizeram uma proposta bem melhor que a no papel meses antes. Recebi em três vezes. Usei para pagar a quem devia, dinheiro acabou. Desanimado, amedrontado ainda com as ameaças, vi Collor ser cassado, Itamar Franco assumir. Perdi também outra referência em minha vida, a dona Alcina Ribeiro, a Táta, a quem considero minha segunda mãe. A casa dela foi meu lar verdadeiro por muito tempo. Perdia então muitas coisas em poucos meses. Sonhos, projetos, todos ficaram no chão. Ficou em mim o espírito empreendedor, a tristeza da traição de amigos, e a certeza de que precisava continuar a remar.

** tinha muito ainda a contar deste episódio, mas daria um livro, e aqui não cabe. Foi um Natal triste aquele de 1992.

Por Salvador Neto

Baú de Memórias #4 – Um passo antes da Meta

Pois então, a saga continua! Afinal, já são mais de 35 anos trabalhando, alguma coisa a gente tinha que fazer não é? Vamos a mais um passo profissional na construção da marca deste que vos escreve. Bora então?

Um passo antes da Meta
Lá estava eu, naquele escritório de contabilidade em meio a papelada, e lendo o jornal do dia. Queria outra oportunidade, melhorar salário, essas coisas que nos movem. Já estava namorando, precisava mais grana no bolso. Encontrei então um anúncio de emprego: precisa-se de auxiliar de escrita fiscal. Seu Norberto Rudnick, então meu patrão, disse-me “vai guri”. Eu fui. Era na extinta Elmo Contabilidade. Fui entrevistado por um dos sócios minoritários – depois fomos sócios, mas aí é outra história… – e depois pelo majoritário. Fui contratado! O escritório funcionava em uma casa bem antiga, de esquina, no centro de Joinville (SC), minha cidade natal.

Meu espaço de trabalho ficava no andar de cima, em uma pequena sala. Trabalhávamos em três ali. Era outono de 1989, e naquele ano votaríamos pela primeira vez em 25 anos para Presidente da República. Os debates eram acalorados. Lula, Collor, Covas, Afif, Brizola, Freire, etc. Gostava já daquela efervescência política, lia e ouvia de tudo. O Brasil voltava aos poucos a se encontrar com a democracia, as liberdades, o direito à cidadania plena. Tinha a nova Constituição, essa mesma que sequer regulamentamos de verdade até hoje. A Constituição Cidadã.

Em meio a isso tudo, fui aprendendo a fazer escrituração fiscal mais complexa, IPI, ICMS, contabilidade por lucro real, e outras coisas. Talvez por ser dedicado à missão que me davam, os sócios me chamaram para um novo desafio: assumir a chefia de um setor. Fiquei surpreso, mas como é da minha personalidade, aceitei. Chamava-se “Expediente”. Ali era o primeiro atendimento ao cliente novo, e manutenção dos existentes. Produziamos contratos sociais, preenchiamos aquela papelada burocrática toda para envio à Junta Comercial, Receita Federal e Estadual, Prefeitura… Tempos em que tudo era na máquina de datilografia, muito papel, carbono para as cópias (que é isso?).

Eu fui líder de três colegas, dois mais novos e um veterano. Um era o contínuo, o outro o motorista que levava e buscava a documentação nos clientes (era vip o troço já) e a outra era a auxiliar de escritório, muito competente. Ali já inovei. Havia um computador de mesa, mesa inteira mesmo (rsrs), e ninguém usava. Por que? Por não saber como… Treinei todos. Passamos a atender muito mais rapidamente o novo cliente. Assim enquanto os atendiam no térreo, nós já produzíamos o contrato social e levávamos para assinaturas. Uma mudança e tanto para a época.

Naquela oportunidade de vida, que ainda não era o que eu desejava, conheci pessoas importantes para o futuro profissional que tive, criei amizades que duram até hoje, 30 anos depois. Eram tempos de um Salvador Neto fumante, atleta de futebol e futsal, que contava os centavos para algum almoço, e que recebia a marmita feita pela mãe Isolde e levada pelo irmão Zeny Júnior (saudosa memória) todos os dias de bicicleta.

Naquele ano que consegui o emprego (1989) perdi meu grande amigo, meu pai. Elegemos o nosso primeiro Presidente da República pelo voto direto, Fernando Collor de Mello (meu voto não foi dele tá). Ali naquele emprego inovei ainda muito mais processos, e conheci de perto Florianópolis, Junta Comercial, cresci muito como profissional e ser humano. Naquele ambiente brotou também o primeiro empreendimento que fiz parte como sócio: a Meta Organização Contábil. No próximo capítulo conto mais.

** nunca gostei de contabilidade…mas de gente, sim, atender, sim… (rs).

Por Salvador Neto

Baú de Memórias #3 – Tinha um banco no meio do caminho

Vamos a outro capítulo da minha trajetória, na verdade uma passagem meteórica e relevante pelo conteúdo. Vamos lá?

Tinha um banco no meio do caminho
No capítulo anterior eu esqueci um trabalho meteórico que tive, e pulei direto para o escritório do seu Norberto Rudnick. Perdão pessoal, mas é que foi uma passagem rápida como um cometa, e dolorosa como dor de dente (que comparação…?!). Graças a uns amigos do futsal, que aliás eu jogava bem, consegui um emprego no Banco Mercantil de São Paulo. Auxiliar de escritório. Este sim, foi o meu primeiro emprego com carteira assinada, mesmo que fugaz.

Meu trabalho lá era pegar uma listagem gigante impressa naquelas folhas listradas de verde e branco – formulário contínuo… – onde estavam em tamanho minúsculo, nomes e números de documentos de cobrança. Chato pacas. Todos os dias entrava às 8h e saía às 14 horas. Bancário né, no tempo que empregos em bancos eram um status legal. Hoje em dia é só digital, caixa eletrônico, e pouquíssimos bancários em relação àquela época.

Tinha de andar arrumadinho. Calça de tergal, alinhada com aqueles vincos sabe (não sabe), camisa social, sapato preto brilhosão, cinto, essas coisas. Cabelo, claro, cortadinho… Na época eu tinha para cortar, e usava até gel para manter os fios alinhados. Eram tempos de economia em crise (novidade no Brasil né), 1987. Minha passagem no Mercapaulo não durou três meses. Nem a experiência! Já conto.

Preguiçoso? Vadio? Nada disso… Naquela época greves eram o que mais aconteciam no país recém saído da ditadura. Governo Sarney, inflação tão alta que os preços mudavam três vezes por dia. O povo com salários achatados, reaprendendo a gritar por direitos, parava mesmo. Os bancários então, fechavam agências com facilidade. Faziam piquetes, ninguém entrava para trabalhar sem discussão, empurra-empurra.

Jovem, querendo agarrar aquele trabalho, o primeiro com carteira assinada, tentei entrar para trabalhar. No primeiro dia, nada. No segundo idem, terceiro… Uma semana de greve. Saíram os piquetes, as faixas, podíamos voltar a trabalhar. Voltei até feliz para os meus formulários recheados de títulos para cobrança e protestos. Até que chamaram o novato para uma conversa.

Entregaram aquele papel. Aviso de demissão porque não havia comparecido ao trabalho, participado da greve. Nem tinha sequer parado em frente aos piquetes do sindicato, mas recebi um carimbo, o de demissão. Ficou a lição do lado. Sim, em qual lado você está entre o capital e o trabalho. Aprendi mais uma lição para a vida, e do lado que escolhi estou até hoje. Há coisas que não podem mudar, não mudam.

Voltei mais politizado ao Bar do Zeny, à limpeza do balcão, da calçada, dos copos, bater caixa no estoque, manter as bebidas geladas e a produzir sorvetes. Até que no início de 1988 fui aprender mais da vida com o seu Norberto Rudnick. O resto desta história vocês já leram na história anterior… Até a próxima!

Por Salvador Neto

Baú de Memórias #2 – Com o professor Rudnick

Seguindo no compartilhamento de minha trajetória profissional, vamos ao segundo capítulo, meu primeiro trabalho com carteira assinada em um escritório de contabilidade, com um contador das antigas… Espero que curtam:

Com o professor Rudnick
Após meu primeiro trabalho no Bar do Zeny, meu pai, consegui um emprego formal, estes com carteira assinada que na época era um luxo – havia muito desemprego na década de 1980. Aliás, hoje isso também é real, infelizmente, e ainda querem acabar com os poucos direitos que os trabalhadores tem. Aliás, aí está um desejo permanente dos comandantes do capitalismo, nenhum direito e todo o trabalho com a mínima remuneração possível. Cada um por si. Eles, que tem tudo, não estão nem aí com o trabalhador comum. Mas, seguimos.

Era um trabalho como auxiliar de escritório em um contador autônomo, o seu Norberto Rudnick, de saudosa memória. Ele era uma figura. Alto, muito magro, cara sempre fechada. Fumava muito, bebia até café frio, era duro e seco. Ensinava uma vez só. Aprendi.

Faturamento, cobrança, emitir notas fiscais, lançar as notas e despesas nos livros contábeis, atender clientes (ele vivia saindo, bebia uns cubas, e dormia atrás dos arquivos em um pequeno sofá) quando ele estava “ausente”, e até fazer os contratos de abertura de empresas e toda a papelada burocrática a ser preenchida.

Eram tempos de máquina de escrever – datilografia, sacou? Não? Pesquisa no google aí (rs) – calculadora de mesa, de fita, papel carbono, lançamentos contábeis à mão. Naqueles tempos passei a ir semanalmente a Florianópolis para abrir as empresas junto à Junta Comercial do Estado. Ia pela manhã, e graças a minha desenvoltura com os servidores, conseguia trazer os contratos registrados. Os clientes adoravam, e seu Norberto também.

Assim o escritório Franco Contabilidade (era quem assinava, porque o Rudnick não tinha o curso de contador) ganhava clientes a mais, e eu aprendia ainda mais a ser um profissional. O salário era baixo, mas ideal para quem vinha de receber alguma coisa só se pedisse muito ao patrão, no caso, o meu pai. Seu Rudnick tinha uma obsessão na época, conseguir o credenciamento para ser despachante do Detran, fazer os documentos de carros, carteiras de motorista. Dava muita grana este serviço.

O lobby dos despachantes, forte até hoje, quase o impediu de ter o sonho concretizado. Antes de eu sair para um novo trabalho, ele venceu e teve a sua credencial. Ficou feliz como uma criança ganhando o seu presente. Com este professor aprendi muito, e o conhecimento que conquistei foi importante para novos desafios profissionais anos depois.

Por Salvador Neto

Baú de Memórias – Do balcão de bar à comunicação

No mês de julho passado resolvi postar uma foto. Amigos começaram a pegar no meu pé, a questionar em quê eu estaria pensando. Eis que deu um estalo nesta cabeça rarefeita de cabelos: porque não contar a minha trajetória profissional? Aproveitar que estou pensando mesmo… Comecei a escrever as histórias, crônicas das passagens profissionais no meu perfil do Facebook. As pessoas gostaram! E agora quero publicar aqui no site todas elas para depois transformar, quem sabe, em livro físico, ebook, para motivar muitas pessoas que se sentem diminuídas por seus trabalhos.

Creio que ao contar o que já fiz para chegar até aqui, e nem cheguei a algum lugar (rs), posso dar alento a quem perde a motivação quando não vê seus sonhos realizados no tempo em que deseja. Vamos então ao primeiro capítulo? Aqui inclusive ele está mais robusto que lá no Facebook, segue o fio:

No Bar do Zeny
Hoje eu sou um profissional sênior na Comunicação, Gestão Estratégica de Projetos, Planejamento, Assessoria de Imprensa, mas também já fui um aprendiz. O balcão de bar do seu Zeny, meu pai, aos 15 anos de vida, foi minha escola de relacionamento público, atendimento, organização, controle, produção – sim, fui um sorveteiro – onde pude dar o meu primeiro passo no mundo do trabalho. Eram tempos de crise econômica, poucos empregos para experientes, imagine para um novato como eu. Quando existiam, a disputa era grande. Perdi vários deles.

Escrevo isso para motivar a quem pensa que não tem experiência por conta dos trabalhos que exerceu. É um engano, pois é aí que está a sua história… Não diminua o que a vida te deu, um aprendizado para sempre. Faça uma retrospectiva da sua vida, uma espécie de linha do tempo, para se perceber, e perceber também o quanto tudo foi importante na sua formação pessoal e profissional. A sociedade nos cobra status, carreiras perfeitas. Isso não é relevante, relevante é o que você faz com o que a vida te ensina.

No Bar do Zeny não tinha frescura não porque eu era filho. Todos os dias eu ficava das 8 da manhã às 18 horas atendendo. Entre um cliente e outro de pinga, cigarros, cerveja, doces, jogo do bicho, recebia mercadorias, vendedores, mantinha as geladeiras cheias, balcão limpo, varria a calçada e passava pano de vez em quando. Afinal, limpeza é fundamental em lugar que vende comida, etc. Meu pai ensinava sobre estoque, como cuidar das coisas, fazer as misturas das bebidas (rabo de galo, mentruz, losna, alecrim, butiá).

Quanto voltava das aulas à noite, ainda ia para o segundo tempo: fabricar sorvetes e picolés. Até fazer os seis baldes que cabiam no pequeno freezer da época, trabalhava até às 2 horas da madrugada. No outro dia, a rotina voltava. Atendi de pinguços profissionais à empresários com o mesmo problema, alcoolismo. Conheci gente com histórias brilhantes, e tinha paciência e carinho com os mais velhos que contavam suas histórias de vida, engraçadas, tristes, aprendizados que guardei para a vida.

Hoje entendo a importância que foi este meu primeiro trabalho. Aprender a ouvir, prestar atenção no outro, ser organizado, produzir o melhor possível, ter carinho no que se faz, ser dedicado, ter empatia. Podem até não acreditar, mas foram cinco ou seis anos em que trabalhei muito, foi meu laboratório para a vida que viria depois e eu sequer imaginava como seria. Me pai nunca pagou meu INSS, não tinha salário fixo. Quando precisava, pedia e chorava uma graninha, rsrs, e ele chorando, me dava. Foi assim que comecei minha trajetória.

Faça a sua linha do tempo. Assim descobrirá com atenção o que aprendeu e o quanto foi importante. E para quem está começando, aproveite todas as oportunidades, boas e ruins, para aprender. Um dia entenderás porque deves fazer tudo com dedicação e amor.

Por Salvador Neto.