O consumo das notícias pelos jovens da “Geração do Milênio”

Salvador-Neto-comunicacao-artigo-geracao-milenio-consumo-noticias-geracao-y-z O consumo das notícias pelos jovens da "Geração do Milênio"
É preciso estar atento às mudanças no modo de consumo das notícias

Além de se preocupar pouco com os noticiários, a chamada Geração do Milênio (formada por jovens entre 18 e 34 anos) parece estar mudando completamente a maneira de consumir notícias.

Se antes era primordial consultar jornais e cobertura televisiva, hoje os jovens preferem recorrer a redes sociais para ficar por dentro dos fatos da atualidade. Simplificando: a rede social não é mais apenas social. Há muito deixou de ser um meio de contato com amigos para tornar-se um meio de conexão com o mundo em geral.

Os dados são fruto da pesquisa “Millennial media habits” (Hábitos de mídia da geração do milênio, na tradução livre), realizada pela ONG American Press Institute, ligada à Associação de Jornais da América, com jovens entre 18 e 34 anos. Embora o estudo tenha sido conduzido nos Estados Unidos, ele é um indicativo importante da relação da primeira geração digital com a imprensa.

Contato quase acidental
Quase 90% dos jovens obtêm notícias regularmente através do Facebook, no entanto menos da metade alega que a notícia seja sua principal motivação para visitar o site ou aplicativo da rede social.

Este dado sugere que a notícia não é “buscada” nas mídias sociais, mas sim visualizada quase “acidentalmente”. É como se as redes sociais funcionassem como uma versão digitalizada do rádio ou do antigo hábito de “zapear” pelos canais de TV.

Outra indicação de que os jovens estão dedicando pouca energia para encontrar notícias é que apenas uma minoria prefere pagar para receber informações. Embora 93% dos pesquisados tenham alegado assinar pelo menos um serviço de comunicação, menos da metade deste grupo disse pagar de fato pelas notícias.

A porcentagem de jovens que pagam por um serviço ou aplicativo de notícias (40%) é menor do que o número que paga para ter acesso a filmes e TV (55%), a jogos (48%) ou a música (48%).

Racionais e exigentes
Mas antes de julgar os jovens como desinteressados, é preciso analisar o conceito de “notícia” na mente dos entrevistados. O que as pessoas de fato consideram notícia? Tráfego e condições meteorológicas, alimentos e restaurantes, placares esportivos?

Para resolver este problema, o estudo investigou os tópicos nos quais as pessoas prestam atenção e de que modo buscam mais informações sobre os mesmos. Esta etapa incluiu entrevistas qualitativas, nas quais os entrevistados foram questionados diretamente sobre os temas que mais os faziam passar tempo online.

Os resultados desmascaram a noção de que os americanos mais jovens estão optando por focar a atenção apenas em notícias leves e entretenimento. A geração do milênio acompanha regularmente uma ampla gama de tópicos, uma mistura de notícias consideradas “sérias” (as chamadas “hard news”), notícias leves e notícias que servem como tópicos de conversas do dia a dia.

Além disso, os nativos digitais são racionais e exigentes na forma como utilizam diferentes fontes de informação para cada tipo de notícia: além de utilizar as redes sociais de forma mais determinada, este grupo faz uso de motores de busca e agregadores para complementar as informações que já possuem, optando sempre por fontes que lhes pareçam mais “profissionais” e confiáveis.

Gosto por hard news
Ainda assim, os jovens pesquisados tendem a se concentrar nos assuntos de seu interesse. Televisão, música e filmes estão entre os tópicos mais seguidos (dois em cada três entrevistados declararam acompanhar as notícias sobre tais assuntos regularmente). Já 60% deles concentram-se em pesquisar sobre notícias e seus hobbies pessoais.

Mas tópicos de notícias mais civicamente orientados também são parte significativa do interesse desta geração. Mais pessoas disseram acompanhar política, crimes, tecnologias, sua comunidade local e questões sociais em comparação àquelas que disseram acompanhar cultura pop e de celebridades, moda e estilo.

Quase todos os jovens adultos entrevistados acompanham as chamadas “hard news”: 45% dos jovens da Geração do Milênio acompanham cinco ou mais tópicos do gênero. O interesse pelas “hard news”, aliás, não parece estar correlacionado à idade.

Os entrevistados mais jovens são tão propensos a acompanhar tópicos de “hard news” quanto os mais velhos do grupo. As entrevistas qualitativas indicaram que praticamente todos possuíam algum objeto de interesse profundo, podendo este ser relacionado à carreira, herança familiar, experiência de viagem ou algum outro fator.

E todos tendem a ser bastante conscientes e ativos ao buscar informações sobre estas áreas de interesse, identificando os especialistas e acompanhando as empresas jornalísticas mais confiáveis no assunto.

Em outras palavras, embora o Facebook seja o meio mais popular para se descobrir algum assunto, quando as pessoas querem pesquisar mais, elas recorrem a outros caminhos, incluindo as empresas de notícias.

Preocupação com a perda de tempo online
É fato que as redes sociais desempenham um papel preponderante entre a Geração do Milênio, principalmente por abrirem espaço para que os jovens opinem, compartilhem as notícias e conheçam outros pontos de vista.

Entretanto, curiosamente, o Facebook – fonte campeã na busca por notícias – também foi citado negativamente, sendo visto como campo para discussões inúteis ou fonte de informações imprecisas e pouco confiáveis. Talvez por isso, muitos dos entrevistados tenham demonstrado preocupação com a quantidade de tempo que passam em redes sociais.

Mudando o consumo de notícias
Segundo o estudo do American Press Institute, embora as redes sociais estejam em primeiro lugar na busca por notícias, as plataformas para encontrar notícias (sejam organizadas por algoritmo, editores humanos ou uma combinação do dois) são a segunda fonte mais acessada (inclui-se aí sites de busca, agregadores e blogs). Pelo menos sete em cada dez entrevistados disseram recorrer a este recurso.

A terceira via é a mídia jornalística tradicional. Embora muitas pessoas caiam nestes destinos por outros meios (vindo de links do Facebook ou Twitter, por exemplo), há quem busque as fontes diretamente – seja assistindo a um noticiário, usando um aplicativo de uma empresa jornalística ou lendo um jornal impresso ou digital. Tais mídias incluem emissoras de TV locais e nacionais, jornal, rádio, criadores de conteúdo online e mídia especializada.

A virtude de olhar para o consumo de notícias por este prisma é que ele revela algo mais sutil do que simplesmente a prevalência do Facebook na vida digital das pessoas. A grande revelação é a pluralidade de fontes que a maioria dos integrantes da Geração do Milênio usa para encontrar notícias.

A participação ativa e o engajamento através de compartilhamento, comentários ou investigações de diferentes perspectivas e opiniões também mostram que o novo consumidor de notícias deixou de ser um espectador passivo e se tornou ativo no meio em que vive.

Com informações do Observatório da Imprensa – Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Derek Thompson [“Journalism in the Age of the Accidental News Junkie”, The Atlantic, 16/3/15], do American Press Institute [“Millennials’ nuanced paths to news and information”, 16/3/15] e de Mark Joyella [“Millennials Want Hard News, Use Google to Find It”, TV Newser, 16/3/15].

Campanhas Públicas movimentaram R$ 729 milhões, afirma Ibope

SalvadorNetoComunicação-Ibope-eleição-propaganda-300x212 Campanhas Públicas movimentaram R$ 729 milhões, afirma IbopeNo mês que antecedeu a proibição da propaganda política paga no rádio e na TV, categoria foi a primeira colocada em ranking de quem mais investiu.

Segundo pesquisa do IBOPE Media, a categoria de campanhas públicas movimentou R$ 729 milhões em junho e foi a que mais investiu em publicidade no Brasil. O mês antecedeu a proibição de veiculação de propaganda política paga no rádio e na televisão e o Governo Federal (16%), o Ministério da Educação (10%) e o Governo do Estado de São Paulo (7%) somaram as maiores participações de investimentos no período.

Além disso, dados do VideoTrack, solução do IBOPE Media que permite a análise da eficiência das campanhas em TV – considerando os resultados de alcance (número de pessoas atingidas) e frequência (quantas vezes, em média, cada pessoa assistiu ao comercial) – mostram que os resultados da categoria de campanhas públicas também foram expressivos em TV aberta.

Na Grande São Paulo, por exemplo, foram exibidas 4.372 inserções, alcançando 90% do total de indivíduos deste mercado. Em média, cada indivíduo foi impactado 103 vezes por uma campanha desta categoria, o que gerou 1,7 bilhões de impactos.

Do Jornal da Comunicação

Artigo: Uma imprensa sem jornalismo

SalvadorNetoComunicação-imprensa-mídia-jornalismo-300x200 Artigo: Uma imprensa sem jornalismoJá se disse neste Observatório que não existe mais uma relação orgânica entre imprensa e jornalismo no Brasil. Alguns comentaristas que se manifestam sobre os temas propostos pelo observador neste espaço, entre eles acadêmicos portadores de currículos respeitáveis, consideram exagerada, ou no mínimo controversa essa afirmação.

Mas a ruptura entre a mídia tradicional, como instituição, e o jornalismo, como atividade socialmente relevante no equilíbrio entre as forças que atuam no espaço público, fica mais evidente conforme se intensifica a disputa eleitoral. É neste período que os principais protagonistas da instituição conhecida como imprensa extrapolam de suas funções mais nobres para atuar como agentes de propaganda a serviço de determinada pauta política.

Como na frase de um antigo assessor do ex-presidente americano Bill Clinton, trata-se, como sempre, da economia: por trás de toda controvérsia abrigada pelos jornais, pode-se notar a linha d’água da questão crucial que ainda divide o mundo das ideias, grosseiramente, entre esquerda e direita. Trata-se de um embate mais próximo do pensamento religioso do que da racionalidade.

Acontece que essa matriz dicotômica não dá conta de iluminar as questões da complexa realidade contemporânea. Assim como as planilhas de uma pesquisa de opinião, por mais extensas e detalhadas que sejam, não conseguem abarcar as sutilezas que demarcam as variáveis individuais, a informação mediada passa longe de retratar a diversidade de interpretações possíveis para cada evento.

A origem dessa complexidade é facilmente identificável: quanto maior o protagonismo dos indivíduos, estimulado pela cultura de massas e facilitado pelas tecnologias de informação e comunicação, maior o peso das individualidades sobre o coletivo.

Tomemos, por exemplo, o caso da Petrobras, que frequenta o noticiário a bordo de uma sucessão de notícias sobre desvios de recursos, fraudes e supostos erros de gestão. Não há como escapar ao fato de que toda a celeuma em torno da estatal brasileira de petróleo tem como núcleo a divergência central grosseiramente delimitada entre direita e esquerda. Isolada a questão da corrupção, fenômeno histórico, o que alimenta o debate é a divergência ideológica.

A ruptura
Desde os comentários em programas noticiosos do rádio e da televisão até os artigos de economistas e jornalistas especializados, passando pelos editoriais que procuram conduzir a opinião do leitor para determinado viés, todas as manifestações credenciadas pela imprensa brasileira sobre a Petrobras carregam uma alta dose de aversão ao controle da estatal pelo… Estado.

Paralelamente ao noticiário – necessário e coerente com o papel da imprensa – sobre erros, fraudes, crimes e outros desvios na gestão da empresa, o que se critica, realmente, é a estratégia de gestão. Dizem comentaristas da mídia tradicional que o governo atual prejudica a Petrobras ao definir uma estratégia que a coloca como um dos instrumentos da política econômica.

Ora, se a aliança política que governa o país foi eleita há doze anos para conduzir um projeto de governo que se propõe a reduzir as diferenças de renda, ainda que eventualmente contrariando a doutrina do livre mercado, e o eleitorado tem renovado seus mandatos, não há como questionar a legitimidade de suas ações quando elas são coerentes com o compromisso anunciado.

A Petrobras, assim como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e todos os ativos do Estado são instrumentalizados para a realização desse propósito. Essa escolha permitiu, há cinco anos, que o governo utilizasse os bancos oficiais para manter a oferta de crédito, quando a crise surgida no sistema financeiro dos Estados Unidos quebrou a capacidade dos bancos privados de financiar atividades econômicas essenciais.

Sob essa estratégia, a Petrobras não apenas reduz a dependência nacional de insumos fundamentais para o dia a dia do país – também atua como fator de moderação de preços. Submetida aos caprichos do mercado, ela serviria apenas aos investidores da bolsa de ações e títulos – que, aliás, durante os anos anteriores se valeram de muita manipulação para fazer lucros da noite para o dia.

Essa é apenas uma das muitas complexidades que a mídia tradicional não penetra, nas intervenções diárias que protagoniza no debate eleitoral. Por quê? Porque não existe mais a relação orgânica entre imprensa e jornalismo no Brasil.

Por Luciano Martins Costa em Observatório da Imprensa

Crises: Como evitar danos com plano preventivo

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Antecipar e planejar, eis o caminho para a gestão de crises de imagem

Todas as empresas, organizações políticas, sociais, governamentais, personalidades de todos os segmentos, sejam políticos, atores, atletas, artistas plásticos, e até você mesmo, sim, você que mantém seus perfis em mídias e redes sociais, podem enfrentar problemas com a imagem, pessoal ou empresarial.

Negar isso é o primeiro passo para um retumbante fracasso, com danos enormes (às vezes irrecuperáveis) para seus negócios. projetos, vida pessoal. Lidar com crises faz parte do ofício de quem atua na área de assessoria de imprensa e comunicação em geral. Não raro há problemas ambientais com a operação de uma empresa, denúncias de desvios e más condutas por parte de agentes políticos, uma foto mal utilizada, ou declarações infelizes dadas à jornalistas, revistas, jornais, ou até publicadas em perfis empresariais e pessoais.

Claro, há como evitar tais erros, economizando alguns milhares de reais, dólares ou euros com atitudes preventivas que pelo menos minimizem as oportunidades de erros, e de crises com a imagem. Veja algumas atitudes que são essenciais e práticas que temos na agência:

1) Construção de um plano preventivo: realize um diagnóstico profundo com mapeamentos dos principais pontos negativos da sua empresa, seus diretores, as práticas corporativas, o sistema produtivo, tudo! Seja altamente transparente com você mesmo e seus negócios.

2) Definir planos de ação aos riscos: com base neste mapeamento anterior, coloque suas energias para escrever sobre cada um dos erros e problemas, especificando o porque existem, quais as causas, o que se está fazendo para melhorar, etc. Isso facilita a reação com mídia em geral, que deve ser rápida.

3) Comunique geral: sim, com base em todo o plano preventivo, as definições claras, muito claras, sobre todos os problemas e erros, você deve comunicar isso de forma também objetiva e transparente aos funcionários, de cada “andar” da organização com sua linguagem, especialmente diretores, gerentes, etc.

4) Treine, treine, treine: com tudo isso pronto (passos 1 a 3) é hora de capacitar, treinar, preparar seu time para qualquer crise que possa ocorrer. Realize oficinas de mídia, treinamentos especiais para lidar com a imprensa tradicional (rádio, tv, jornais, sites, blogs) e mídias e redes sociais. Capacitados, seus profissionais comunicam melhor, com objetividade, e municiados de informações estratégicas contidas no plano preventivo.

5) Abra o coração: sim, seja aberto à imprensa sempre, aos repórteres, colunistas, blogueiros, ativistas, com mediação de profissional de comunicação habilitado e experiente para isso. Quando acontecer a crise, e nunca esqueça disso, ela pode acontecer a qualquer um, há um caminho a seguir.

Com a mente aberta para esses passos, algumas dicas de quem já enfrentou muitas e variadas crises de imagem com seus clientes, esperamos que você e sua empresa ou organização tenham compreendido que melhor é prevenir que remediar, consertar. Sucesso!

* Escrito por Salvador Neto, consultor estratégico em comunicação, planejamento e gestão de comunicação, marketing, assessoria de imprensa, mídias sociais e conteúdo. Tem mais de 20 anos de serviços prestados em assessoria de imprensa em vários segmentos, já enfrentou crises de imagem das brabas!

Eleições e Campanhas: A lógica do candidato mudo

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Marketing eleitoral cada vez mais presente nas eleições

Luis Castaneda Lossio é um dos vinte candidatos à prefeitura de Lima nas eleições de outubro próximo. Por aqui, é quase certo que ninguém o conheça, nem sequer dele tenha ouvido menção, considerando-se o proverbial alheamento da vida sul-americana por parte de brasileiros. Antes de mais nada, é oportuno informar que a capital peruana vem deixando transparecer em sua paisagem urbana (segurança nos bairros mais abastados, transformações arquitetônicas, limpeza das ruas etc.) aspectos da modernização neoliberal do país e do aumento de renda em setores privilegiados. Nesse momento, administrar a cidade pode ser tarefa mais prestigiosa do que em épocas passadas.

Castaneda, um populista de alinhamento conservador, já foi prefeito de Lima. Mas aquilo que agora o torna especial é a sua singular estratégia de campanha: a mudez. A se acreditar no que relata a grande imprensa – no curso de uma curta estada nossa em Lima –, Castaneda opta por não dizer coisa alguma nos contatos públicos com seus virtuais eleitores. De modo muito explícito: não apenas deixa de “dizer” alguma coisa, mas simplesmente nem fala. A quem possa julgar absurda essa atitude, vale adiantar que o “candidato-mudo” (assim o batizou a imprensa) está à frente nas pesquisas de intenções de votos – 54% sobre seus adversários.

Não é um episódio inédito no Peru. Anos atrás, por ocasião da disputa presidencial entre Mario Vargas Llosa e Alberto Fujimori, as belas palavras públicas do grande escritor peruano contrastavam com o eloquente silêncio de Fujimori. Descendente de japoneses, olhos rasgados como os dos descendentes de incas, Fujimori não debatia, nem apresentava ideia nova, mas parecia escutar com atenção o que lhe diziam os componentes dos estratos mais pobres do país. Como se sabe, eleito presidente da República, ele pôs fim à guerrilha do Sendero Luminoso, ao mesmo tempo em que montava uma ditadura brutal e corrupta com a ajuda de um “Rasputin” peruano chamado Vladimiro Montesinos e cerca de uma dúzia de generais. Todos eles, o ex-presidente inclusive, cumprem longa pena na prisão militar de Callao, perto de Lima.

O fato, porém, é que a estratégia de Fujimori ainda ressoa. Há uma certa sabedoria das massas nessa escolha da mudez por parte de um candidato ao poder. Com efeito, não é a comunicação linguística de um político profissional que lhe granjeia votos, mas a comunicação como um fim em si mesma, sem compromisso semântico, que se traduz na prática como a possibilidade de não fazer sentido nenhum e ainda assim ser “compreendido”.

Informação real
A título de exercício comparativo, pode-se passar em revista os discursos dos atuais presidenciáveis no Brasil para logo se dar conta de que realmente se fala, mas nada se diz– nenhum projeto coerente, nenhuma pretensa verdade pública. Nem mesmo o velho poder hipócrita da virtude arrisca-se a desenterrar a cabeça da areia.

Onde quer que se manifestem, as intenções de voto obedecem a uma lógica em que o poder dos partidos (a “partidocracia”) substitui aos poucos o Estado. Por sua vez, girando burocraticamente ao redor de si próprios e atravessados pela ausência de credibilidade, os partidos já não têm mais capacidade de referenciação social, nem um mínimo de representatividade democrática. Nada do que se diga parece ter qualquer importância ou significado público. O partido é um estilhaço político, uma grife jurídica, um flatus vocissocial.

O que resta?
Em privado, as negociatas e as alianças de afogadilho. Em público, a comunicação autorreferente, composta de outdoors, santinhos, imagem televisiva, inserções em redes sociais e entrevistas. A vantagem presumida de um candidato sobre outro é avaliada pelo tempo de tevê. Já não é mais a imagem que vale mil palavras e sim o tempo de exposição que vale mais do que a imagem. Nada do que se diga vale pelo dito, mas pela pura materialidade prolongada da presença.

Daí, o interesse do observador pelo fenômeno do candidato peruano que faz da mudez o seu marketing pessoal. Por mais pitoresco que possa parecer, o “candidato-mudo” revela na prática que o nada-dizer ou o nada-significar é a realidade última do jogo político. No limite, a única informação real dada pelo candidato ao eleitor (além da óbvia indicação da camarilha partidária que o gerencia) é a sua própria cara. Só que, com o pano de fundo do vazio de sentido, a própria cara perde a sua amplitude diferencial. Semioticamente, todos têm a mesma cara, a exemplo de um mesmo produto com grifes e preços diferentes.

Do Observatório da Imprensa, escrito por Muniz Sodré é jornalista, escritor e professor titular (aposentado) da Universidade Federal do Rio de Janeiro.