E a China chegou à Marte

Desde julho do ano passado, a missão chinesa Tianwen-1 segue viagem com destino a Marte, levando um rover e um lander que irão pousar em maio no planeta para estudar sua geologia, campos gravitacionais, distribuição de água e outros objetivos científicos. Nesta quarta-feira (10) a missão entrou com sucesso na órbita marciana, onde vai ficar alguns meses buscando do melhor local para o pouso. Agora, a China se torna o sexto país a entrar na órbita marciana.

A sonda ativou seu motor principal durante aproximadamente quinze minutos para que conseguisse reduzir sua velocidade de 23 km/s para 5 km/s e, assim, ser capturada pela gravidade do planeta. Tudo foi feito de forma autônoma em função do atraso que existe para o envio e recebimento dos sinais. Depois disso, foi iniciado o período da ocultação da sonda na órbita marciana, uma etapa em que não é possível receber sinais da nave porque ela está viajando por trás de Marte. Após quase uma hora de ocultação, a comunicação foi restabelecida e a agência espacial chinesa CNSA confirmou o sucesso da manobra de inserção da sonda na órbita por volta das 10h, no horário de Brasília.

A missão Tianwen-1, cujo nome significa como “busca pela verdade celestial”, consiste em um orbitador, um rover e um lander que irão estudar o Planeta Vermelho. A ideia é que o orbitador fotografe e produza mapas de Marte para identificar o melhor local de pouso e, depois disso, o módulo que contém o rover em seu interior irá descer para a superfície marciana. Essa é uma etapa crítica da missão e, se tudo correr bem, o lander irá liberar o rover na superfície do planeta para passar cerca de três meses estudando a geologia marciana e a possível distribuição de água congelada.

Essa foi uma das missões lançadas em julho para aproveitar a breve janela do período de maior proximidade entre Marte e a Terra, o que permite uma viagem mais rápida para o planeta e com menor consumo de combustível. Então, enquanto seguia viagem, a sonda lançou para o espaço uma cápsula que guardava uma pequena câmera em seu interior, que estava programada para tirar uma foto por segundo.

A “selfie” da Tianwen-1 durante a jornada para Marte (Imagem: Reprodução/CNSA)

Embora a China já tenha experiência com pousos na Lua, essa é a primeira missão interplanetária independente que o país realiza. A Tianwen-1 é a segunda missão que chegou ao Planeta Vermelho nesta semana, já que, na terça-feira (9), a missão árabe Hope Mars havia entrado com sucesso na órbita de Marte. Agora, a próxima a chegar será a Mars 2020, da NASA, que viaja levando o rover Perseverance e o helicóptero Ingenuity. A missão deverá alcançar o planeta em 18 de fevereiro.

Coronavírus – “A infodemia ameaça mais que o vírus”

Novamente o mundo anda às voltas com uma nova epidemia, agora o Coronavírus. A ameaça que já atinge mais de 100 países e infectou mais de 100 mil pessoas no mundo e matou cerca de quatro mil delas, avança derrubando a saúde, as bolsas, empregos, a movimentação do mundo. Para acalmar e orientar a quem se assusta com as notícias, segue artigo publicado no Observatório da Imprensa:

O inevitável acabou acontecendo. O covid-19, mais conhecido como novo coronavírus, chegou ao Brasil e agora temos diante de nós duas responsabilidades igualmente importantes: mobilizar os recursos médicos e científicos para atender às pessoas contaminadas e desenvolver procedimentos capazes de minimizar a consequência potencialmente mais letal da enfermidade, a irracionalidade do medo coletivo.

A terapia mais eficiente contra o pânico social é a informação, antídoto das condutas irracionais alimentadas pelo desconhecimento. Mas é também o mais complexo de todos os medicamentos disponíveis no combate ao covid-19. Até agora, as autoridades de saúde vêm pedindo que as pessoas evitem o contágio do medo, mas nenhuma estratégia consistente de comunicação foi desenvolvida para evitar o que já foi apelidado de infovírus.

O problema é complexo porque mexe tanto com o lado racional quanto com o irracional das pessoas colocadas diante de uma ameaça de contágio pelo covid-19. Todos nós temos o instinto natural da autodefesa, mas isso varia de pessoa para pessoa dependendo do seu nível cultural, grau de conhecimentos e do tipo de acesso à informação, para citar apenas os itens mais comuns em matéria de formação de opinião pública.

disseminação de boatos e notícias falsas pelas redes sociais aumentou de tal maneira que empresas como Facebook, Twitter, YouTube, Tik Tok e Tencent montaram grupos de crise para lidar com a contaminação do pânico. A situação atingiu limites críticos na província chinesa de Hubei, onde está localizada a cidade de Wuhan, o epicentro da epidemia. Em cidades inteiras submetidas à quarentena doméstica, seus habitantes passaram a usar as redes sociais obsessivamente, o que facilitou a disseminação de boatos, do medo e de atitudes discriminatórias.

A epidemia, que já configura uma pandemia (disseminação generalizada pelo mundo), é o primeiro caso concreto em que a sociedade planetária globalizada é obrigada a lidar com uma enfermidade cujo combate depende tanto da informação, justo num momento em que nós ainda não sabemos como lidar com ela no dia a dia.

Como enfermidade, o coronavírus não é mais letal que outras epidemias recentes causadas por vírus, como foi o caso da Síndrome Respiratória Aguda (sars) e da zika. A epidemia surgida no interior da China passou a ser temida mundialmente porque contaminou a disseminação de informações num mundo digitalmente interconectado, algo absolutamente inédito na história da humanidade.

Boatos mais velozes que o vírus

Até agora, estávamos acostumados a combater epidemias usando apenas médicos, enfermeiras, remédios e hospitais, mas a revolução tecnológica, a globalização social e a explosão demográfica criaram uma situação inteiramente nova que está pondo à prova nossa capacidade de adaptação à nova realidade.

A ciência moderna pode encontrar uma vacina contra o coronavírus com relativa rapidez. Não faltam conhecimentos, dinheiro e equipamentos de pesquisa. Além disso, cientistas australianos já desenvolveram um aplicativo apoiado em robôs eletrônicos que consegue detectar rapidamente o surgimento de uma epidemia usando como base mensagens no Twitter trocadas entre doentes, médicos e hospitais. Seriam fatores capazes de gerar tranquilidade, mas o que se nota é um aumento acelerado das condutas irracionais alimentadas pelo medo, mostrando que o contágio do pânico é muito mais veloz do que a transmissão física do vírus.

Essa disparidade entre informação e desinformação está na origem da primeira grande infodemia da nova era digital. Para combatê-la, não bastam vacinas e hospitais. É essencial um recurso altamente escasso no mundo inteiro e que ainda é pouquíssimo estudado: como lidar com a informação em situações críticas, onde as pessoas são confrontadas com o desconhecimento?

Durante mais de um século, fomos instruídos pela imprensa comercial a esperar dela a solução para a grande maioria de nossos problemas. “Vocês pedem, nós investigamos e publicamos as soluções” foi o mantra tradicional dos conglomerados midiáticos, incorporado pela maioria dos jornalistas profissionais. Hoje, a situação mudou radicalmente. A imprensa está em crise, não pode mais responder a todas as demandas da sociedade e nós ainda não conseguimos resolver por nossa conta os dilemas criados pela avalanche de informações criadas pela internet.

Estamos sendo contaminados pela infodemia do coronavírus sem ter o preparo suficiente para lidar com o contágio do medo. Apenas uma elite de pesquisadores da comunicação tem consciência do papel crítico que a informação passou a ter em todos os mecanismos sociais contemporâneos. Em algumas áreas, como a política, o fenômeno das fake news conseguiu incorporar ao vocabulário cotidiano uma preocupação que é compartilhada por cada vez mais pessoas. Nas redes sociais, também há bolsões de conscientização das consequências de notícias falsas, boatos e rumores.

A pandemia do coronavírus pode criar uma situação crítica em matéria de informação sobre como lidar com a nossa saúde. Estamos sendo obrigados a reconhecer que nosso bem estar não depende mais apenas de remédios e tratamentos. Depende também, e muito, do tipo de informação que temos e sobre a qual baseamos nossas decisões. Os cientistas podem até descobrir a cura do coronavírus, mas se o contágio do medo for mais rápido, o esforço dos pesquisadores será incapaz de salvar a vida de todos os infectados física e informativamente.

***

Carlos Castilho é jornalista profissional, graduado em mídias eletrônicas, com mestrado e doutorado em Jornalismo Digital e pós-doutorado em Jornalismo Local.